Histórias de Moradores de Limeira

Esta página em parceria com o Museu da Pessoa é dedicada a compartilhar histórias e depoimentos dos Moradores da cidade.


História da Moradora:
Alexandra Priscila do Nascimento

Local: São Paulo
Publicado em: --

História: A melhor jogadora do mundo


Sinopse:

Nascida em Limeira, São Paulo, em 16 de setembro de 1981, Alexandra Priscila do Nascimento, atleta de handebol recebeu em 2012 o título de Melhor Jogadora do Mundo. Sonhava em ser professora, casar e ter filhos. Começou no esporte aos 10 anos de idade inspirada pelo pai que jogava futebol.

Para mostrar a ele que ela também poderia jogar, entrou no handebol já que era “ terrível no futebol”. Participou das Olimpíadas de Atenas, Londres e Pequim. Virou selo e carimbo comemorativo dos Correios em 2012. Realizada profissionalmente, Alexandra é feliz no casamento com um também atleta de handebol, mora na Áustria e sonha em ter filhos.


História

Eu nasci em Limeira, em 16 de setembro de 1981. Meu pai se chamava, porque já é falecido, Suemar Jorge do Nascimento, nascido no Espírito Santo e minha mãe, Nelza Maria Gonçalves do Nascimento, nasceu em Minas. A minha mãe antes, ela era só dona de casa e depois ela passou a trabalhar na escola. Hoje ela trabalha na prefeitura no Espírito Santo. Meu pai é ex-jogador de futebol, teve uma pequena passagem no Santos Futebol Clube, no ano de 1981, e depois foi pro Espírito Santo. Eu fui pro Espírito Santo quando tinha seis anos. Eu tenho dois irmãos, um se chama, Álvo Lúcio do Nascimento, é casado, tem um filhinho de quatro anos e tenho um irmão que se chama Andrius Henrique do Nascimento, com 25 anos e também é jogador. Está tentando entrar na vida do handebol.

Minha avó era índia e meu avô, negro da África. Eles se conheceram, tiveram filhos, eu tenho: meu pai, meu tio, um outro tio e mais duas tias. E todos os nomes são com S, é: Sandra, Sônia, Suede, Solemar e Suemar. A minha avó era muito fechada e meu avô era paizão. Eu tenho assim um amor e um carinho muito grande pelo meu avô, eu passei mais tempo com o meu avô, ele era mais carinhoso comigo e minha avó, por Ns motivos. A família era muito unida, mas veio o falecimento da minha avó e desestruturou a família, porque depois foi meu pai, foi meu avô e foi minha tia, então, devagarzinho a família foi dispersando.

Meu pai jogava aqui em São Paulo, então sempre estava mudando de clube e todo final de ano, a gente ia pro Espírito Santo. Depois, com seis anos de idade, foi quando ele resolveu voltar pro Espírito Santo, por coisas de família, a mãe dele já estava bem idosa. Eu tinha seis anos de idade. Minha família é humilde, e a gente morava no bairro Cobi de Cima. Minha família ainda mora lá. A educação foi muito rígida, até pelo motivo de onde nós vivíamos. Com dez anos, foi quando eu descobri no caso o esporte, porque como meu pai jogava futebol e eu tinha um irmão mais velho, eu sentia que meu pai não olhava pra mim, porque ele sempre falava que o meu irmão mais velho ia jogar futebol. Então, acredito que foi essa vontade de querer mostrar pro meu pai que eu também era capaz de fazer alguma coisa, no caso no esporte.

Com dez anos eu entrei no handebol. Foi até engraçado, porque a gente cumpria horários, a gente tinha que ir pra escola e depois da escola a gente tinha que vir direto pra casa. Quando eu descobri que tinha handebol, que eu tive meu primeiro contato, eu conversei com a minha mãe e meu pai. Eu tinha medo assim de pedir as coisas pra ele. Aí ele disse: “Ok, pode jogar”. Depois de dois anos, meu pai veio a falecer. Ele não passou nada, não viu nada da minha vida na questão do lado esportivo e eu segui. Eu segui jogando. Joguei na Escola Rogério de Matos, foi onde eu comecei, depois da EVV, joguei numa equipe de bairro e com 18 anos eu tive a primeira proposta de vir jogar para São Paulo. Joguei três anos em Jundiaí, com a professora Rita de Cássia Orsi.

Depois mais um ano com Guarulhos, porque como a prefeitura deixou a Jundiaí, então todo mundo teve que se dispersar e procurar outra equipe. Fiquei quase um ano em Guarulhos, com a professora Marisa Loffredo e, com 18 anos também, já comecei a atuar na Seleção Brasileira de Handebol. O meu treinador no caso, na seleção, foi Alexandre Schneider e, com 18 anos fui pra lá. Primeiro Pan-Americano,fui pra Hungria, primeira vez saindo do Brasil.

Com 22 anos tive a proposta pra ir pra Áustria, na equipe, Hypo Niederösterreich. Lá atuava a Daniela Piedade, que é a pivô da seleção, há dois anos. A ponta direita se lesionou e precisava de outra ponta e perguntaram pra ela: “Não, tem uma ponta, é nova, 22 anos e ela vai agora pro Mundial na Croácia”, então eles falaram: “Bom, ela vai vir pra cá” – “Ela vai vir pra cá, então a gente vai assistir o Mundial e se der, ela vem pra cá fazer o teste” e, joguei o Mundial, terrivelmente. Eles falaram: “Não, por mim, a gente não leva ela pra fazer o teste, porque foi muito mal”, e estava o manager, que falou: ”Ah, a gente já está aqui e teria que está levando ela, vamos levar”. Eu fiquei uma semana e passei. Eles pediram pra eu ficar, era dezembro, porque em janeiro já começava a Liga dos Campeões e eu não sabia aonde eu estava me enfiando. Foi em 2004 e estou até hoje.

Eu lembro que eu estudava em São Paulo, se chamava Gatinho Vermelho, era uma blusinha branca, com um shortinho vermelho. Eu lembro onde a gente juntava à tarde, comíamos e depois tinha que escovar os dentes. Lembro das torneirinhas abertas, dessas coisas eu lembro e, depois o momento de voltar pra casa. Vinha eu com a bolsinha assim de lado, com as canelinha, que sempre fui caneluda e chegava em casa e minha mãe olhava pra mim e eu falava: “Oi”, e ela falava: “Oi, tudo bom? Como é que foi a escola?”, falava que tinha sido bem e ela falava: “Agora é guardar as coisas”. Sempre gostei muito de estudar, nunca tive problema com a escola. Depois do pré eu fui pra professora Eliana, que levou a gente da primeira até a quarta série, a gente nunca trocou de professora. Então a gente criou um carinho muito grande por ela, inclusive eu tenho contato com ela até hoje.

Eu tinha muitos amigos. Tinha minhas amigas, no caso do bairro assim, que era a Larissa Xavier e a Aline Xavier. Elas tinham medo de ir em casa. Elas entravam, a gente estava rindo, meu pai chegava, todo mundo ficava tudo durão, com medo. Depois a gente ia pra rua, de vez em quando, porque meu pai não gostava que a gente ficava na casa de outras pessoas. E tenho a Leidiane também, que foi com quem eu cresci, estudamos juntas, eu comecei com handebol na escola. Outra amizade que eu carrego até hoje do Espírito Santo é a Jamile Porto.

Meu sonho era me casar com 18 anos, terminar também a faculdade, que eu queria ser professora. A única coisa que eu consegui foi casar, com 29 anos. O meu primeiro beijo foi muito novinha, com um amiguinho do meu irmão e minha mãe, como trabalhava na escola, ele ficava e eu ia pra lá, pra falar que eu ia ver o meu irmão. Mentira, eu ia olhar ele. Ele era um pouco mais velho que eu, da mesma idade que o meu irmão, se eu tinha nove, ele devia ter uns dez, e a gente era muito novinho, foi um beijinho assim que eu odiei. E depois meu pai falava, brigava com a minha mãe, imagina, que eu só ia namorar com 18 anos. Eu fiquei com o João, dos 13 anos até os 22 anos, que foi quando eu fui pra Europa. E então, a gente queria noivar, aquela coisa de adolescente. A única coisa ruim do nosso relacionamento é que ele não me apoiava no handebol, ele não via meus jogos...

Chegou um dia e falou que eu tinha que escolher o handebol, então foi difícil, mas eu falei pra ele: “Olha, se você está me perguntando entre você e o handebol, eu vou escolher o handebol, porque hoje a gente está junto, eu vou lutar por nós dois, mas eu não sei o que vai acontecer e a única coisa que eu tenho certeza dentro de mim é que eu quero continuar no handebol”, e como que terminamos, depois voltava e quando eu fui pra fora do Brasil, daí não teve como. Eu era assim uma adolescente esquisita, porque eu sempre fui muito magra, tinha vergonha do meu corpo, com 15 anos foi começar a aparecer alguma carninha.

Eu fui aprender handebol assim por incentivo do professor e das amigas. As memórias que eu tenho não é de brincadeiras na rua essas coisas, é tudo handebol, sempre me entreguei e respirei handebol.

Minha mãe sempre foi muito liberal com a gente, ela que apoiava todas as nossas decisões, na verdade ela queria que eu jogasse vôlei, que minha mãe na época de escola, ela jogou vôlei. Foi ela que mesmo, com a única filha, me liberou pra vida. Parece que ela sabia que tinha que ser assim. Não me prendeu e quando eu fui pra lá, que eu ligava pra ela, era ela que era meu porto seguro, quando eu tava triste, quando as coisas não estavam dando certo, ela sempre me apoiou muito.

Eu fui pro Doutor João, Escola Cenecista pra poder fazer, que na época não era Pedagogia, era magistério. Então, o primeiro ano era básico e depois você escolhia uma carreira e quem pagava essa escola era o irmão da minha mãe. E o primeiro ano foi básico, e quando já estava quase terminando, no final do ano, eu descobri que iam tirar o magistério, e tiraram o magistério.

E eu fiquei: “Que que eu vou fazer?”, então eu fiz Processamento de Dados, uma coisa assim nada a ver. Então foi assim pra aproveitar, porque com o handebol também eu conseguia bolsa também na escola. Fui pra São Paulo e eu fiz, Pedagogia, gostava muito, foi muito difícil, pelo fato que eu tinha minha amiga, que eu falo que era minha mãe, a Regina, ela que me ajudou muito nesses dois anos de Pedagogia.

Meu marido é chileno e eu conheci ele em 2001, em São Bernardo. Só que eu namorava e ele também namorava, então foi assim, realmente foi amor à primeira vista que eu gostei muito dele. Só que a gente respeitou assim os nossos tempos, ele respeitou mais do que eu respeitei, ele soube esperar. Ele perguntou: “Você tem e-mail?” “Sim, tenho” – nem sabia o que era!

E trocamos, nas troca de e-mail, a gente trocou também o endereço, porque eu queria que ele mandasse uma foto e ele queria que eu mandasse uma foto pra ele. Ele me mandou e eu namorava, então essa cartinha que eu recebi dele, fiquei muito ansiosa, quando chegou em São Paulo. Eu tinha que mandar essa carta pra minha mãe, para guardar pra mim, porque meu ex-namorado não podia saber. E a espera dessa carta, porque ele falou que ele já tinha mandado e a minha carta chegou e a dele não tinha chegado. Até que a minha amiga trouxe a carta e eu abri e vi a fotinho dele. Então a gente passou a se corresponder, não por e-mail, e sim por cartinhas. E depois eu fui pra Europa e não sabia a distância da Espanha pra Áustria. Passei pra ele o meu telefone e ele me ligou. A gente foi conversando e ele foi pra lá em 2005.

A carta ajudou também a nossa aproximação. E depois quando eu estava em São Paulo, eu sempre mandava carta pra minha mãe, carta de final de ano. Eu fui pra Áustria e tem a minha amiga Regina, que eu falei da faculdade, a gente se escrevia quase todo mês, quase todo mês, mandava foto, mandava o que eu tinha feito.... O meu marido hoje, muito romântico, ele mandava carta pra mim, ele queimava as pontinhas da carta pra fazer igual antigamente, pra fazer o papel como velho.

Ele joga handebol também, ele joga handebol pela seleção do Chile, ponta direita como eu e canhoto como eu. Ele pediu minha mão em casamento em 2007, no Pan do Rio. Em 2010, a gente decidiu se casar em julho de 2011 e foi tudo uma correria, porque a minha família é do Espírito Santo, a família dele é do Chile e a gente resolveu se casar em Porto Seguro.

A rotina do atleta é fazer mala, desfazer mala, essa é a verdade, a gente não para nunca em um lugar só. Quando está com o clube, a gente está fazendo preparação, então a gente vai pra Hungria, vai pra Áustria, vai nos países que são mais pertos. E com a seleção, imagina. Eu já tenho três olimpíadas, a primeira na Grécia, a segunda em Pequim e a terceira em Londres, então é maravilhoso e, um sonho que eu tinha quando eu era pequena.

Eu me lembro hoje do primeiro jogo, quando eu pisei na quadra pro primeiro jogo, na Grécia. É uma sensação maravilhosa, é gratificante, você quer dar sempre o seu máximo, não existe cansaço, não existe dor quando você chega numa Olimpíada; com lesões, com cansaço, com saudade, esse é o momento que você esquece de tudo.

Meus sonhos hoje é continuar na Seleção Brasileira, ganhar uma medalha nas Olimpíadas em 2016, estar subindo no pódio com a torcida maravilhosa, ginásio cheio, estar dando uma alegria e ter um filho. Vendo aquela coisinha crescer, ficar grande, eu quero ficar enorme, espero que depois eu volte ao normal e ter uma coisinha só minha, dependendo de mim e do pai dele.

O que eu falo é que se eu tivesse um livro na minha mão com toda a minha história escrita e falasse: “Você quer tirar alguma página?” eu falaria que não. Porque até o falecimento do meu pai me ajudou a ser uma pessoa mais forte, porque eu tive que correr atrás de muitas coisas, então isso ajudou a ser a pessoa que eu sou hoje.

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